[ breviário de decomposição ]

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

A execução


Goya, No se puede mirar, Desastres.


Esta noite fui novamente agraciado com as lembranças de outro sonho esquisito. Do que eu me recordo restaram apenas os fragmentos que passo a narrar.


Goya, Con razón ó sin ella, Desastres.


Era um cenário onírico, com todas as assincronias que lhe são inerentes. Estávamos numa prisão, situada na torre de uma espécie de castelo, no alto da montanha mais alta que se afigurava no horizonte. Eu era o carrasco. Já havia sido um prisiorneiro e para comutar a minha pena, a mando de alguém tinha de executar os condenados. Estavam ali a minha mãe, que me dava a ordem fatal, e a mais velha de minhas irmãs, que possuía a lista dos prisioneiros eleitos.


Goya, El 3 de Mayo (1814), Madrid, Museu do Prado.


Minha mãe anunciava, em tom solene que lista havia chegado. Eu titubeava, e ela, impaciente, ordena "Prepare sua arma que a execução deve se inciar". E completou "Faça o que tem de ser feito". Impávido, eu permaneceia reflexivo. Com a lista nas mãos, de relance eu passava sobre ela os olhos e percebia que os cinco nomes ali escritos eram de antigos amigos. Mas preferia não associar aqueles nomes aos seus donos, ao que foram ou ao que representaram para mim. Em silêncio, devolviaa lista à minha irmã. Estava ainda mais inquieto.


Édouard Manet, Exécution de l’Empereur Maximilien(1867), Mannheim, Städtische Kunsthalle.


Saí do cômodo nos encontrávamos. Subi e desci escadas, preparei o fuzil e fui ao encontro dos prisioneiros. Simulei tiros e retornei. (Acho que acabei libertando os prisioneiros, mas não me lembro o certo disso). Disse a elas que estava feito, mas logo perceberam o engodo. Ficaram desesperadas com as conseqüencias do meu ato - especialmene minha mãe. Sentado, de cócoras e cabisbaixo, disse-lhes que não poderia tê-los executado. Não sei o porquê.


Pablo Picasso, Massacre en Corée (1951), Paris, Musée Picasso.


Acordei. Até agora me pergunto qual o significado de tudo isso. Qual a relação desse sonho bizarro com o anterior, não menos estranho, se é que há alguma? Quem saberá...?

[Origem das estampas de Goya: PAAS-ZEIDLER, Sigrun, Goya. Caprichos, Desastres, Tauromaquia, Disparates. Reproducción completa de las cuatro series, Barcelona, Gustavo Gili, 2001.]#

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domingo, 18 de fevereiro de 2007

Ela


Inesquecível cena do filme O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, Suécia, 1956, com roteiro e direção de Ingmar Bergman), em que Antonius (Max Von Sydow) encontra a Morte, que o desafia para uma partida de xadrez.


Esta noite aconteceu algo raro: sonhei. E logo com quem... Com ela mesma, a Morte. E quase a encontrei mesmo. As imagens que me recordo são vagas e imprecisas. A seqüência dos acontecimentos também. No sonho, haviam amigos meus de outrora e por alguma razão todos eles estavam mortos ou morrendo naquele instante. Então eu ia junto com eles, me afogando ou sufocando. Acho que era uma espécie de afogamento coletivo, mas não tenho muita certeza disso porque não me recordo direito de realmente haver água no sonho. Mas também poderia haver, não sei... Lembro-me que, como os outros, eu tinha de morrer, eu precisava morrer. Então, com naturalidade e resignação, me sujeitava à força dos acontecimentos, ao meu fatídico destino. Ela, a Morte, estava lá me chamando e eu queria atender ao seu sinistro apelo. Pensando bem, acho que havia água sim no sonho, porque agora me vem à lembrança que eu não queria ter os meus pulmões cheios d'água (eca!, sempre tive horror a isso), então deveria segurar firme a respiração até morrer. E como estava sendo fácil! Creio que eu morria e possuía consciência da minha morte, que estava morto. (Ou chegava muito próximo disso). Nesse instante, por alguma razão me veio à cabeça a idéia de que tinha de voltar, que não poderia me entregar assim, pois tudo era apenas um sonho. E se continuasse sem respirar como de fato estava fazendo, sufocaria. Então voltei a respirar normalmente e acordei no meio da madrugada. Não acordei assustado, mas tive ciência da Morte e do seu reino. E ela parecia estar rondando bem perto. #

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